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Em um passado remoto, muito antes das cidades, da escrita ou das religiões organizadas, alguém se deteve diante de um corpo sem vida e tomou uma decisão: não abandoná-lo. Abriu a terra, acomodou ali um semelhante, talvez com algum cuidado, talvez com hesitação. Nesse gesto discreto, quase invisível para a história, pode ter surgido um dos primeiros e principais sinais do que hoje reconhecemos como humanidade. É a partir dessa imagem, ao mesmo tempo concreta e carregada de sentido, que se desenvolve Quando começamos a enterrar os mortos?, lançamento da Editora Gaia na Série Walter Neves. Escrito por Walter Neves, Lukas Blumrich e Eliane Sebeika Rapchan, o livro conduz o leitor por uma investigação sobre as origens do pensamento simbólico e sobre aquilo que, afinal, nos define como humanos. Amparados por evidências arqueológicas e por uma ampla revisão de estudos científicos, os autores analisam registros de sepultamentos, especialmente os que indicam algum tipo de ritual, ao longo de centenas de milhares de anos, do Pleistoceno Médio ao início do Paleolítico Superior. No centro dessa jornada está uma questão essencial: em que momento passamos a atribuir sentido à morte e a transformá-la em experiência cultural? Nas últimas décadas, avanços na ciência vêm desfazendo antigas certezas sobre a singularidade humana. Características antes consideradas exclusivas – como a locomoção bípede, o uso de ferramentas ou a complexidade das relações sociais – também aparecem, em diferentes graus, em outras espécies. Diante disso, a obra propõe uma mudança de foco: mais do que habilidades, o que nos diferencia pode ser a capacidade de interpretar e significar nossas próprias ações. Quando começamos a enterrar os mortos? aponta que duas expressões se destacam como indícios dessa transformação: a arte e o sepultamento. Ambas revelam uma dimensão simbólica que ultrapassa a funcionalidade imediata. Enterrar um corpo deixa de ser apenas um ato prático e passa a indicar memória, afeto e consciência da finitude. Ao reunir análise rigorosa e reflexão sensível, o livro sugere que, ao cuidar de seus mortos, nossos antepassados talvez tenham dado também os primeiros passos na construção de sentido para a própria existência, como se cada sepultura fosse, ainda hoje, uma pergunta silenciosa dirigida ao tempo.
Disponível
Editora: Editora Gaia
Capa brochura, 152 páginas.
Categoria:
Ciências Sociais / Ciências Sociais / Geral
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